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A figura do herói na política – Poder e influência

A figura do herói tem sido, desde sempre, usada em política. Poderoso modelo e arquétipo, transcende eras e modas, ideologias e tipos de Governo.

Este breve artigo pretende descrever e apresentar uma parte da dissertação e mestrado em Ciência Política, posteriormente publicada no livro “O Herói Hoje”1. É, assim, uma abordagem ao herói diferente das que habitualmente se encontram e que é por isso pertinente e urge estudar.

A ideia de estudar o herói vem do livro “Quem Governa?”, de António Marques Bessa (Bessa, 1993). À pergunta de quem governa e da dissertação sobre as elites, fica em aberto a questão do herói e da sua importância. É essa a questão base desta pesquisa.

É a figura do herói ainda usada em política? Qual a sua importância no jogo de poderes? Qual os seus significados e em que medida este poder simbólico tem influência no mundo actual?

Por questões de espaço e tempo, deu-se primazia aos heróis ficcionados, por se querer verificar aqueles que mais agradam às massas e que mais são consumidos. Por outro lado, o herói ficcionado é o herói na sua forma mais pura e aquele que transmite a verdadeira essência do que é desejado. Hegel, que nos deixou uma teoria muito própria do que é ser herói, compreendeu isso o afirmar: “Nenhum homem é herói para o seu criado, não porque ele não é um herói, mas porque o outro é um criado” (Hegel, p. 45), as acções comuns do dia-a-dia, as imperfeições próprias do ser Humano, faz com que ao herói real, que à sua figura, seja imposto um desgaste natural a que os heróis criados não estão sujeitos. É também um trabalho que tem uma perspetiva bastante eurocentrista.

Uma viagem no tempo

Quando pensamos no tempo dos heróis, pensamos sobretudo num passado de ouro, numa era mítica e gloriosa onde ansiamos pertencer. Os duros tempos do presente sempre foram demasiado reais, e não é à toa que isso acontece; afinal é esse o nosso campo de batalha, o hoje e o agora.

Mesmo os heróis contemporâneos vivem ou numa outra dimensão ou tendem a ser figuras anti-heróicas, quebradas pelo peso dos dias. Foi sempre assim?

Os primeiros heróis e tempos heroicos são retirados de fábulas míticas. Com o correr da História, o conceito heroico vai mudando, a sociedade, as mentalidades, vão criando novas figuras-modelo. O que não vai mudar é a própria essência do herói, isto é, a capacidade que todos temos de nos transcender.

Estudar o herói na História dá-nos uma dimensão da época; mas para além disso, a História traz-nos uma série de aromas, de sabores, desperta o sentido para realidades diferentes. A História “…não é só uma ciência e uma atitude: envolve igualmente uma estética” (Maccedo, 1983) . E no caso do estudo do herói, para além de uma estética envolve também uma ética e, por vezes, uma moral. E é esta ética e essa moral que vão ser usados como fio condutor, como lição a seguir, e que nos vão transmitir a “alma” da época.

E isto porque a estética e ética aliada a um herói grego não é mesma do herói hegeliano. Se a glória de um está em ser cantado, a do outro está em servir a História, mesmo que esta não o cante.

Assim, e na História, podemos estudar o herói de duas perspetivas: Os heróis da História e os estudos que sobre ele se têm feito ao longo do tempo.

Quanto ao primeiro estudo, podemos começar com Gilgamesh e terminar na enorme profusão de tipos heróicos e anti-heróicos com que convivemos hoje. Considerada a mais antiga criação literária, Gilgamesh é um herói que no fundo quer apenas o que continuamos a querer hoje, a imortalidade. E assim o querem os heróis gregos, modelo clássico a que nos remete tantas vezes a palavra “herói”. A modificação do herói grego para o herói romano vai criar uma cisão e uma tendência a que ainda hoje não somos estranhos.

De facto, podemos observar que todos os modelos se encontram bem vivos, basta procurar. Dos mártires e santos medievais ao herói romântico vai um suspiro que demorou alguns séculos, mirado mais ou menos de longe pelo arquétipo do guerreiro que vai, no início do século XX, ter uma alteração estrondosa ao começar um século conturbado que vai ver (re)nascer o culto do estrelato, da admiração e imitação aos que representam os heróis. De resto, este misto de luzes e de pó (estrelato e guerra) desagua no século XXI, onde o anti-herói tenta nadar contra uma corrente que nos traz de volta magos, fantasia e utopia em busca de um graal que muitas vezes não sabemos bem qual é.

Quanto ao segundo tipo de estudos, podemos encontrar já várias abordagens ao estudo do herói. Aqui ficam as principais e as que são mais pertinentes para a temática do herói e da ciência política.

Um dos primeiros que encontramos é o “Espelho de Bolso para Heróis”, de Baltasar Gracián (Gracían). Este contemporâneo de Maquiavel escreve aqui uma resposta ao princípe. Se “O Princípe” era um manual de governo do Estado, este pequeno guia de bolso é um manual para o bom cristão se governar a si mesmo. Um facto curioso, este manual apresenta grandes semelhanças com os manuais de auto-ajuda que encontramos hoje em voga: a defesa de que todos podemos ser heróis, de que a salvação e a mudança residem e devem vir de dentro de nós e de que o heroismo é algo de pessoal e de privado.

Temos de seguida os incontornáveis estudos de Hegel, o herói como agente da mudança, em que a sua relevância é apenas servir um papel na história e com um papel essencialmente político e instrumental.

Talvez o mais célebre estudo acerca de heróis seja o de Carlyle (Carlyle, 1840) que, na senda de Hegel, também considera o herói como uma agente da mudança e que nos deixa 6 grandes tipologias ou modelos, que são, no fundo, elas próprias uma viagem à História da Humanidade. São elas: O herói enquanto divindade; o herói enquanto profeta, o herói enquanto poeta, o herói enquanto líder religioso, o herói enquanto homem de letras; o herói enquanto rei.

De seguida, os estudos de Jung (Jung & Segal) e de Cambell (Campbell, 1973). Se Jung reconheceu e estabeleceu o arquétipo do herói, Campbell vai mais longe e vai identificar a viagem do herói como o monomito, ou seja, a viagem mítica comum a todas as culturas.

Por fim Sidney Hook escreveu aquele que é o mais pertinente estudo acerca do herói e da sua relação com a História e a política. No seu livro “The Hero in History” (Hook, 1945), Hook apresenta-nos uma outra visão do que é o herói e o seu uso em política, tendo a perfeita consciência de que a pureza do acto heróico é mais uma imagem do que um facto quando usado pela propaganda e pela comunicação política. De sublinhar que Hook escreveu o seu livro durante a II grande Guerra Mundial e que este foi publicado em 1945.

Ideologia e comunicação

A questão da ideologia é central no estudo da Ciência Política e no estudo do herói, mas interessa-nos aqui a ideologia também do ponto de vista da psicologia social e a ideologia do ponto de vista pessoal.

Em relação à psicologia social interessa-nos a questão da criação de atitudes e de valores. Para Rohan e Zanna (Tesser & Shwart, 2003), que basearam os seus estudos nas obras de Allport, os valores podem ser condicionados, sendo estes o que vai condicionar e gerar decisões de cariz comportamental e também atitudes. Deste ponto de vista, as ideologias serão a deliberada consciencialização de decisões tomadas perante estes valores. Assim, enquanto os valores condicionam implicitamente, as ideologias têm um cariz valorativo per si.

Não nos podemos nunca abster de que existe uma esfera social e uma esfera individual, e que ambas interagem para formar valores e atitudes. E assim chegamos à ideologia do ponto de vista pessoal. Individualmente, no nosso âmago, temos uma utopia que mesmo quando compartilhada, traços gerais, com um conjunto de pessoas, tem sempre características únicas de pessoa para pessoa. O mesmo acontece com a questão do herói, que é bastante delicada, já que age a nível do nosso inconsciente e com os nossos desejos. Por isso, do outro lado temos o vilão, o desconhecido, o que não apreendemos ainda muito bem. O herói é a nossa área de conforto, o familiar e onde somos, afinal, nós próprios, porque é a imagem que gostaríamos de ver reflectida no espelho.

Do ponto de vista político por ideologia entende-se algo “que se traduz numa força social à qual corresponde uma doutrina produzida num sistema complexo de causa e efeito (…)” (Lara, 1995). A ideologia, a sua força social, são o campo do herói. Deixado já o terreno da teoria, a ideologia necessita de instrumentos que a reforcem e ajudem à sua propagação; o herói, o seu culto vão ser um instrumento poderosíssimo. E é também a este nível que vai actuar a propaganda e todo o uso de símbolos e ideias. Os meios divergem, mas a essência continua a mesma. Na realidade, não mudámos assim tanto.

Assim, a nível de ideologia podemos identificar quatro tipos de heróis: o herói deus, o herói pai, o herói colectivo e o anti-herói. São estes os tipos que, de uma forma geral, vamos encontrar a nível ideológico e que vão depois ser trabalhados pela comunicação política, em especial pela propaganda, segundo as suas leis.

O herói, hoje

O hoje levante sempre a interrogação do presente e da sua existência. Vivemos por natureza com um olho no passado e outro no futuro. Se os anti-heróis são sem dúvida um grito mudo para uma independência e aviso distópico, é certo que continuamos a deixar que os heróis de outros tempos vivam entre nós.

Os precipitados anúncios do fim da ideologia e do fim da história não foram só prematuros mas também sintomáticos de uma sociedade em crise, com alguma dificuldade em crer em utopias e com alguma presunção de que era a meta atingida.
A História continuará a seguir o seu curso, a ter os seus heróis e os seus vilões pois precisa destes para contar o seu ponto de vista; as ideologias continuarão enquanto os homens pensarem e se atreverem a ter fé no futuro e nas suas utopias. E estas, ideologias e utopias, continuarão a ter os seus modelos de herói e a usar a sua aura mítica e mística como instrumento.

Se por um lado necessitamos do mítico, do épico, num mundo que nos parece cada vez mais homogéneo, e procuramos a magia que julgamos varrida irremediavelmente dos tempos da história, por outro lado temos a consciência de que há um outro mundo. Uma distopia à espera e que só os novos anti-heróis da nossa era a irão poder evitar.

Hoje em dia o herói está mais do que nunca omnipresente, dos canais clássicos como a literatura, a banda desenhada e o cinema, entrou para as nossas casas primeiro pela televisão e depois pelos jogos de computador e de consolas, onde é permitido a cada um de nós vivenciar as suas aventuras em primeira mão.

Continuamos a precisar de heróis, não mudámos assim tanto, estamos um pouco mais cínicos e por isso a crescente popularidade da figura do anti-herói. À cantada necessidade de poetas que percebam a essência dos Povos, das Nações e dos Estados, acrescentemos a necessidade de heróis para serem cantados, celebrados, a ponte entre o imperfeito que somos e a perfeição que gostaríamos de ter.

Uma força assim poderosa e pessoal que é usada para fins de condicionamento urge ser estudada pois dá-nos a conhecer aspectos de uma estrutura simbólica e cultural e, como é óbvio, política. O uso do herói em política é muito mais do que o uso que a propaganda faz. É símbolo e arquétipo, a paradigmática imagem que encarna desejos, metas, e por vezes, utopias de ideologias, de uma certa e particular maneira de apreender o poder político. O herói não só é necessário como é uma utopia possível, somos nós elevados à quadratura do círculo após o processo alquímico de transformação do chumbo em ouro.

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15 de abril de 2015

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